Xis Princesa


Conto: Sintonia Perfeita
Abril 28, 2009, 9:53 pm
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Quase não se viam rugas. A pele era macia, e era bom esfregar uma mão na outra. A janela entre-aberta, com a luz passando cheia de minúsculas partículas de poeira que brilhavam bonitinhas. Ela soltou um suspiro sem nem quase perceber.
Deitou na ponta da cama e deixou sua cabeça virar até os cabelos encontrarem o chão. Tudo estava invertido, mas não fazia diferença porque agora a diferença era a música. Ela ouviria qualquer coisa, mas se tocasse aquela… Aquela que conta uma história que eu nunca vivi mas bem que poderia, gosto dela… Se tocasse seria bom, e será que em outra estação? E o único que podia se dar ao luxo de escolher alguma estação era seu dedo mindinho, que conseguia se esgueirar pelo pequenino buraco onde faltava o botão. Quando enfim havia uma sintonia perfeita, talvez, tocasse aquela. E se não tocasse, era bom, e se não fosse, não faz mal, era só voltar para a favorita… Mais um trabalho para o dedo mindinho. A cabeça doía, era melhor ficar no chão.
Chão de tacos e porta fechada. De um lado um armário, do outro uma cama, e na frente um antigo toca-discos. No centro, ela e o rádio. O armário não fechava direito, e ela ficava abrindo e fechando a porta porque gostava do som arranhado que ele fazia, porque não era um arranhado irritante, e talvez porque não suportasse apenas o som do rádio de frente ao seu rosto e nada na outra extremidade, e combinava. O antigo toca-discos era só um item esquecido de sua mãe. O rádio estava à frente. O rádio estava em tudo, principalmente quando deitava com um ouvido no chão e outro no rádio… Ela estava no meio de uma floresta invisível, e o locutor chamava mais uma, mais uma da minha cidade… Essa era boa, dizia… “Na na na na…”, fecham-se os olhos nas infinitas letras que aparentemente não tinham significado nenhum… “Na na na n
E a porta abre. Ela vira rápido e cheia de vergonha mas tentando não demonstrar.
– Vai almoçar já ou depois?
– Que?
– Almoço já saiu, não vai comer?
– Depois. Fecha a porta, por favor?
Fui violada. O chão de tacos machucou meu braço. A testa enrugou. Porta semi-fechada. Sintonia falhando.
Ela virou quase raivosa para usar o mindinho. Colocou na favorita e voltou a deitar, batendo de leve a cabeça no chão. Não doeu, porque o locutor anunciava alguém da minha cidade que pediu aquela música. Aquela! Finalmente…
Mas aí não se fala mais, nem o armário resmunga. Malabarismos para conseguir escutar com os dois ouvidos e a vontade de que nunca acabasse. Por um momento ela pensou que a música podia nunca mais findar para que essa sensação permanecesse. Mas como as sensações, a música acaba, o dia também e com os dias a infância.
Houve o fim definitivo do botão e do rádio depois da infância, mas o céu é o mesmo, nos quartos por aí.



Je ne regrette rien!
Abril 13, 2009, 9:59 pm
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Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait,
ni le mal, tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien,
C’est payé, balayé, oublié,
je me fous du passé.

Avec mes souvenirs,
j’ai allumé le feu.
Mes chagrins mes plaisirs,
je n’ai plus besoin d’eux.

Balayés mes amours,
avec leurs trémolos.
Balayés pour toujours

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Car ma vie, car mes joies,
Pour aujourd’hui
ça commence avec toi

PS: Não parece, mas tenho escrito sim. Estou sem Internet e não dá pra postar tudo. Aos poucos voltarei aos trilhos, até porque nunca consigo largar os blogs, desde 2002.

PS2: Na foto – Júlia e Luiza no Jardim Botânico, em SP – Pic by Mari Zatz