Interrompi o hiato para colocar um conto que reli ha alguns dias atrás, de um Livejournal que eu tinha em 2006. Tinha esquecido desse conto, mas percebi como gosto dele.
O papel de hoje é sujo, pensou a atriz que observava o escritor a datilografar na antiquíssima máquina de escrever. Sua barba estava elegantemente desarrumada e batia as barulhentas teclas de forma impecável, não errava um parágrafo sequer. Mesmo assim, se detinha a criar em papéis sujos que mal cabiam na extensão de uma sulfite. Escrevia uma peça de teatro, mais precisamente um monólogo, e escrevia maquinamente, só lembrava um ser humano quando corria-lhe alguma gota pela testa. Sua mente viril agora se encontrava em um estado completamente feminino, estava afogado nos pensamentos da jovem prostituta surgida das letras.
A moça virou-se de lado, olhou algum ponto que se perdia na parede escorrida do quarto e começou a ensaiar. Em um suspiro só tornou-se a mentira florescente. Gesticulava, e deixava escapar as palavras como que por dedução, dizendo poeticamente: “Arde, arde. Essa noite eu me sinto mais suja que nas outras noites. Estou imersa no limbo da sujeira de todos eles. A perversidade afoga-me dizendo ‘Nunca serás de ninguém!’, mesmo sabendo que hoje sou de todos…” – Foi bruscamente interrompida pelo tilintar grosseiro da máquina de escrever.
“Guria, não pode ficar quieta um pouco? Errei e estava bem no fim.”
Ela olhou-o de olhos semi-cerrados, ao mesmo tempo que arrastava o lençol que lhe abraçava o corpo, andando de forma tênue em volta da mesa, analisava cada segundo. Deixou-se cair pesadamente no chão levando á frente os pesados cabelos negros.
“Meu amor, eu sou baixa”
“Baixa? Santo cristo! Que te deu, guria?” – O cigarro escorregava-lhe pelos lábios machucados e a testa molhada moldava uma expressão tensa e fria.
“Mais baixa que essa moça das tuas idéias. Ela só faz amor, e ainda conta pecúnia o dia todo… Porque retratam como profissão tão triste essa?”
“Não sabe do que tá falando, vê se aprende. Aquele bando de homem sujo e capenga… Tudo tosco e pútrido, que mulher quer isso?”
“Mas se estamos com um homem certo como você eles continuam nos dando somente as costas, já reparou, amor? Não acha mais podre fazer amor com alguém que vai te dar as costas de qualquer jeito depois e não ganhar nada em troca?”
“Me diga que está só teatrando, por deus…”
“Estou retratando.”
“Você tem meu peito antes das costas.”
“Até quando? Prefiro teu peito com prefixo ‘Res’”
Ela se arrastou em silêncio até o banheiro e o lençol foi se desatando do seu corpo no chão sujo, ouviu do quarto aquela frase de diálogo interminável, em voz meio rouca:
”Depois, amor” – E assim encerrou-se.
A água do banho escorria lenta, parecia que zombava a sinfonia do som da máquina de escrever e da água descendo, ria da desprezada ao canto do banheiro. Deitou-se e ouviu o ralo, gotejando podridão abaixo, e só sentia as gotas mais limpas. O sabão fazia uma espuma desconfiada no meio de suas juntas. Quando ajoelhou-se já seca, cortou a sinfonia doméstica, sentiu cheiro de café e disse pro tapete:
“Olha aí, meu melhor papel”
Eu ainda não acredito na enorme casca em que essa sociedade brasileira têm se escondido. Nietzsche escreveu o “Anticristo”, e dali, pra mim, a teoria da conspiração tornou-se plausível e defendível com argumentos convincentes. Depois de milhares de anos de mentira, a Igreja católica ainda insiste no mesmo discurso prosaico. A igreja não acompanha o andamento da civilização, e coloca as pessoas numa posição extremamente confusa e contraditória entre a moral cristã e a realidade da vida. A fé não é condenável, é um refúgio, que muitas vezes é confundida e associada a essa moral. Em uma música interpretada pelos Beatles e escrita por Gerry Goffin e Carole King, existe, na letra, uma metáfora interessante:
Chains, my baby’s got me locked up in chains.
And they ain’t the kind that you can see.
Whoa, oh, these chains of love got a hold on me, yeah.
O intuito poético de quem escreveu a música pouco tem a ver com o tema desse texto. Mas a realidade é que nos vemos hoje constantemente presos em correntes invisíveis de “amor”, exatamente como diz na música. Não sabemos se isso é uma coisa boa ou ruim, sabemos que estamos, e lá ficamos.
Lendo coisas sobre aborto na internet, encontrei uma garota em um fórum que ansiava por ajuda porque tinha apenas 17 anos, estudava, trabalhava e havia descoberto que estava grávida de um garoto que ela namorava a apenas 5 meses. A primeira resposta do tópico, colocada como “Melhor resposta até o momento” era de uma outra garota que muito asperamente respondeu: “Na hora de abrir as pernas você foi muito mulher, não é? Que tal ser mulher e assumir o filho? Fica se fazendo de vítima, mas a errada foi você”.
Oras, então o ser humano (mais especificamente, a mulher) tem de viver sem nunca errar? Estamos compelidas a uma vida de preocupações e neuroses, como se a cada segundo fosse acontecer um desastre natural? Uma criança pergunta à mãe de onde vem os bebês, e ela explica, pormenorizando, que o papai “planta” uma sementinha dentro da mamãe e então nove meses depois nasce o bebê. Ao que, para a surpresa da mãe, a criança rebate da forma mais inesperada, com a frase “Ainda bem que você só fez isso uma vez, mãe”. Essa historinha é motivo de risada sempre que é contada, porque sabemos muito bem que ninguém mais faz sexo só para se reproduzir. Os erros, esquecimentos, descuidos… São coisas que acontecem e não podemos julgar alguém porque até hoje ninguém nunca decifirou a complexidade da mente humana. E os que julgam, são sempre os que estão de fora da situação, não viveram aquilo, mas falam, falam, falam… Como se fossem os maiores especialistas no assunto. Enquanto tudo é escondido, finge-se que nada acontece.
Mas acontece. São mais de zeis zeros enfileirados de dados de aborto clandestino por ano no Brasil, sem contar aquilo que não é computado. Como as pessoas ignoram isso e ficam discursando a favor da “vida” nas igrejas enquanto em casa tem uma gaveta cheia de camisinhas? Muitas mulheres também adoram fingir que não tem sexualidade, que não se masturbam e ficam tão pressionadas que o sexo se torna algo chato e meio que uma “obrigação”. Também não está escrito a quantidade de homens católicos bem casados que procuram prostitutas para compensar a frieza da própria esposa. Além disso, o corpo da mulher é da mulher, ela está sempre sozinha numa dessas, mesmo se o namorado for companheiro. Ela se olha no espelho e lembra do problema: “Estou grávida” é primeira pessoa. “Está grávida” é terceira.
Há um rombo enorme entre a sociedade ver quem ela é e o que ela pensa que é. A perfeição está só no dicionário. Esse Deus inquisidor não é perfeito.
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
(Augusto dos Anjos)
É engraçado. De certo modo essa poesia me persegue. O título dela é “Versos Íntimos”. Tem horas que adoro, outras que odeio, mas me é íntima, de verdade, como jamais outra coisa foi. E isso porque sempre que sinto a escarrada, dou-lhe razão. “Como esse ser humano pôde ter escrito tão bem aquilo que se vê nos cantos da vida?”. Também me pergunto se isso acontece com todo mundo, ou se simplesmente estou num momento pessimista da vida. Cheguei a um extremo, e perdão por citar Amy Winehouse logo depois de Augusto dos Anjos, mas… “Love is a Losing Game”.
Por que arriscamos amar? O amor é um defeito insaciável do homem, talvez um desejo desesperado e íntimo de sofrer achando que está em busca da felicidade. Sempre que amamos, nos decepcionamos. Mas quando não temos ninguém pra amar também ficamos insatisfeitos. Existe a plena felicidade que dura através de anos, existe esse tal amor infinito e insuperável que nos fazem digerir – e acreditar – nas telenovelas, por exemplo?! Na vida real, não ouço histórias como essa. Ouço histórias de mentiras, hiprocrisia, terror, saudades… Mesmo nos casos aparentemente bem sucedidos… Nas histórias de amor há sempre uma vírgula, acho que é assim que elas se sustentam.
Na verdade há muita coragem em quem arrisca amar. Coragem dos dois lados. Tentam se convencer que são uma coisa só, mas são duas, sempre vão ser. Dois corpos distantes, inquietos, que não se conhecem, apesar de tudo. Dois seres pensantes, energia ligando-os em algo que é inexplicável e alguns dão um nome.
Amor não existe. É uma palavra designada para sentimentos e ações que as pessoas consideram semelhantes. Amor transcende. A idéia do que ele é está dentro de cada um, seria impossível unir as suas com a dos outros, mas ela se constrói com a tentativa. Tentamos infinitamente, com vírgulas, sem vírgulas… Um dia sentamos e aí: “Eu amo essa pessoa, é amor! O que mais poderia ser?” – Então o convencimento. Das vírgulas, da superação, da teoria, da prática, então dizemos: “Amor é isso aqui”.
Apesar de tudo, eu não me isento. Tenho necessidade de amar, de superar-me e não consigo evitar nada disso. É mais fácil pensar assim: A mão que te afaga é a mesma que apedreja… Apedreja essa mão vil que te afaga! Maior que é a coragem de amar, é a de não amar, não se entregar a essa chama maravilhosamente mórbida. Antes das vírgulas… Pontue.
É a mensagem do filme “O Passado”, dirigido por Hector Babenco. É um roteiro dramático, e só não beira o dramalhão porque consegue equilibrar-se devido às muitas muitas reviravoltas na história, e não fica cansativo.
O filme começa com a separação de um casal que viveu junto por 12 anos. A moça (Sofia) ainda é apaixonada, mas Romini (Interpretado pelo deleitemáximo Gael Garcia) parece estar cansado. Na verdade o motivo da separação é o que menos importa no henredo. O tempo passa, e o foco narrativo do filme se volta para o rapaz. Ele começa a se relacionar com outras mulheres, mas Sofia está sempre presente, de um jeito ou de outro, através de telefonemas, pequenas cartas, pequenos encontros casuais… O que acaba transtornando o personagem principal, que se vê desmoronando cada vez mais em cada volta da ex-mulher.
Claro que vai ficar super chato se eu contar o fim, mas vale a pena assistir pela reflexão que o filme proporciona… Me fez pensar sobre a importância da memória, e de que forma ela se desprende do passado para viver conosco o presente.
A memória é mesmo atemporal. Sofia, no filme, é uma personagem enlouquecida, que volta e faz atrocidades, loucuras… E é inconstante, fica muito tempo longe, depois volta e persegue. Essa personagem é a nossa memória (O nome já nos dá a dica… Sofia). Até que ponto também não pensamos atrocidades? Nos afundamos nos pensamentos daquilo que poderíamos ter feito e não fizemos no passado… E depois passa, fica muito tempo afastada, até que um dia voltam. E vão voltar até o fim da vida.
As vezes temos a impressão que elas querem ficar. Mas elas nos enganam, porque a cada dia construímos novas memórias sem perceber. É algo incontrolável. Amamos, sofremos, choramos, vivemos, rimos… E tudo fica ali. E vai, e volta. A memória é atormentadora, não é? Não é um demônio? Não tem dias que queremos esquecer de tudo, apagar tudo aquilo, e começar feliz? Mas não podemos. E no fundo nem queremos. Se apagarmos tudo não teríamos motivos pra rir depois que tudo passa. Mas nada passa. A vida não é um rio como dizem por aí. A vida é tudo isso, é uma grande massa orgânica de pensamento, e pensar ou lembrar de uma pessoa já é mudá-la e mudar-se. A memória do que passou é o próprio presente. E o presente é inconstante e flutua na nossa frente, sempre passando. A memória é aquilo que vivemos de verdade. Quando lembramos, estamos lá/aqui, afinal de contas, a vida é pensamento também.
Tudo é passageiro, mas tudo o que passa faz parte do presente. O passado jamais passa.
E depois dessa divagação filosófica, assistam o filme, vocês vão começar a pensar coisas desse tipo também!
Chegou e sentou, sem surpresas. Olhava para o relógio, impaciente consigo mesma. Mas precisava estar lá, ainda tinha um prato de comida inteiro pela frente.
Ele veio quase sem querer, sentou-se sem fazer barulho, a quase um metro e meio de distância. Mesmo com o barulho incessante de seres humanos vivendo ao seu redor, ele atreveu-se a ser silencioso.
Ele comia um lanche; ela, arroz e feijão. Mas tanto fazia. Até agora, eram apenas duas pessoas em horário de almoço. Até ela sentir… Um fio.
Esse fio ligava-os. Eles comiam sem parar, mas ela sentia esse fio percorrer de pensamentos insanos pelos dois. “Mas como sei o que ele pensa? E se ele nem tiver reparado que estou aqui? Não pode ser, não é possível estar tão errada, porque sinto. Ele está comendo, mas também reparou. Deve estar se perguntando se estou pensando nele. Mas como vou saber exatamente?…” E engoliu a carne.
Olhou algumas vezes para o lado, rapidamente, disfarçando, pra ver se decorava a sua feição. Era magro, usava uma camiseta branca, e estava já na metade do lanche. Olhava pro lustre, mas sua objetiva captava quase que claramente sua imagem. Não podia encarar, ia dar na cara. Não podia saber se era bonito, mas algo na ponta de seus dedos lhe parecia familiar. “Já vi essas pontas de dedos… Eu gosto desse tipo de dedo. E se esse homem for o homem da minha vida? E se o destino desses dedos é me tocar pelo resto da minha existência? E se ele se chamar Pedro, Murilo, Hugo? E se meu sobrenome combinar com o dele? E se a gente descobrir enfim o verdadeiro amor? E os filhos vão ser maravilhosos”
Aí revelou-se a verdade. Ele acabara de comer o lanche, e deixara para beber o suco só depois. Ele se espalhou pela cadeira da mesa, sugando pelo canudinho o liquido alaranjado. Ela olhou de raspão, admirou aquele milésimo de segundo e se contentou, tudo era claro: “Ele também bebe o suco depois. É o homem da minha vida, tenho certeza… Só pode ser. E também está olhando aqui. Não vi ele olhar, mas só pode estar… Eu sinto ele olhar”.
Começou a ficar nervosa, quase suou frio, olhava para as coisas tentando disfarçar certa naturalidade. Já estava atrasada, mas queria que aquele momento de silêncio durasse pra sempre. Ele sabia, ele estava sentindo a mesma coisa. “Vou falar com ele, vou levantar daqui e perguntar ‘Qual é o seu nome? Porque está almoçando sozinho? Você mora por aqui?’ ou simplesmente… ‘Quer casar comigo?’… Ele aceitaria, porque justamente estava pensando em fazer a mesma pergunta. ‘Aceito. Qual é o seu nome? Puxa… Nossos nomes combinam” – Ele diria. Não levantava dali, ela sabia que ele olhava sem parar para a ela, começou a ficar vaidosa, e a naturalidade lhe escorria pelas mãos em seus falsos gestos. Há muito tempo a comida havia acabado, o suco também, não havia mais o que fazer, tornou-se insuportável.
Então ela levantou, fingiu olhar o relógio com interesse, e foi embora, perdendo assim para sempre o amor da sua vida.
Dia dos namorados é depressivo pra quem não namora, pelo menos pra mim é. Por isso, vamos rir dessa situação, comendo muito chocolate para liberar endorfina, ouvindo músicas da jovem guarda sobre amores pitchulos, mandar “torpedos” para amigos bestas e rir de piadinhas estilo pedreiro, como:
”Você é o ovo que faltava na minha marmita.”
”Você tem goibada dentro da barriga? Porque você é um sonho.”
”Seu pai é mecânico? Porque você é uma graxinha.”
”Tem uma pedra no alto do morro. E aí? Rola ou não rola?”
”Do you have a spoon? Because I’m giving you a soup.”
E uma frase do Adão: “Eva era tão ciumenta que contava minhas costelas todos os dias”
E outra do Gilberto Gil: “Vez em quando, quando me sentia longe, dava por mim/Puxando o cabelo nervoso, querendo ouvir Celly Campelo pra não cair”
E posso ficar feliz. Se eu fosse corinthiana estaria pior.
Mas no fim de tudo, ALL YOU NEED IS LOVE!
Love, love, love
Love, love, love
Love, love, love
There’s nothing you can do that can’t be done
Nothing you can sing that can’t be sung
Nothing you can say, but you can learn how the play the game
It’s easy
There’s nothing you can make that can’t be made
No one you can save that can’t be saved
Nothing you can do, but you can learn how to be you in time
It’s easy
All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need
Love, love, love
Love, love, love
Love, love, love
All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need
There’s nothing you can know that isn’t known
Nothing you can see that isn’t shown
Nowhere you can be that isn’t where you’re meant to be
It’s easy
All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need
Atualizado: Vídeos – “Seus Passos – Skank”







