Xis Princesa


CONTO: Elas Vendas
Julho 6, 2009, 6:22 pm
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Interrompi o hiato para colocar um conto que reli ha alguns dias atrás, de um Livejournal que eu tinha em 2006. Tinha esquecido desse conto, mas percebi como gosto dele.

O papel de hoje é sujo, pensou a atriz que observava o escritor a datilografar na antiquíssima máquina de escrever. Sua barba estava elegantemente desarrumada e batia as barulhentas teclas de forma impecável, não errava um parágrafo sequer. Mesmo assim, se detinha a criar em papéis sujos que mal cabiam na extensão de uma sulfite. Escrevia uma peça de teatro, mais precisamente um monólogo, e escrevia maquinamente, só lembrava um ser humano quando corria-lhe alguma gota pela testa. Sua mente viril agora se encontrava em um estado completamente feminino, estava afogado nos pensamentos da jovem prostituta surgida das letras. 
A moça virou-se de lado, olhou algum ponto que se perdia na parede escorrida do quarto e começou a ensaiar. Em um suspiro só tornou-se a mentira florescente. Gesticulava, e deixava escapar as palavras como que por dedução, dizendo poeticamente: “Arde, arde. Essa noite eu me sinto mais suja que nas outras noites. Estou imersa no limbo da sujeira de todos eles. A perversidade afoga-me dizendo ‘Nunca serás de ninguém!’, mesmo sabendo que hoje sou de todos…” – Foi bruscamente interrompida pelo tilintar grosseiro da máquina de escrever.
“Guria, não pode ficar quieta um pouco? Errei e estava bem no fim.”
Ela olhou-o de olhos semi-cerrados, ao mesmo tempo que arrastava o lençol que lhe abraçava o corpo, andando de forma tênue em volta da mesa, analisava cada segundo. Deixou-se cair pesadamente no chão levando á frente os pesados cabelos negros.
“Meu amor, eu sou baixa”
“Baixa? Santo cristo! Que te deu, guria?” – O cigarro escorregava-lhe pelos lábios machucados e a testa molhada moldava uma expressão tensa e fria.
“Mais baixa que essa moça das tuas idéias. Ela só faz amor, e ainda conta pecúnia o dia todo… Porque retratam como profissão tão triste essa?”
“Não sabe do que tá falando, vê se aprende. Aquele bando de homem sujo e capenga… Tudo tosco e pútrido, que mulher quer isso?”
“Mas se estamos com um homem certo como você eles continuam nos dando somente as costas, já reparou, amor? Não acha mais podre fazer amor com alguém que vai te dar as costas de qualquer jeito depois e não ganhar nada em troca?”
“Me diga que está só teatrando, por deus…”
“Estou retratando.”
“Você tem meu peito antes das costas.”
“Até quando? Prefiro teu peito com prefixo ‘Res’”
Ela se arrastou em silêncio até o banheiro e o lençol foi se desatando do seu corpo no chão sujo, ouviu do quarto aquela frase de diálogo interminável, em voz meio rouca:
 ”Depois, amor” – E assim encerrou-se.
A água do banho escorria lenta, parecia que zombava a sinfonia do som da máquina de escrever e da água descendo, ria da desprezada ao canto do banheiro. Deitou-se e ouviu o ralo, gotejando podridão abaixo, e só sentia as gotas mais limpas. O sabão fazia uma espuma desconfiada no meio de suas juntas. Quando ajoelhou-se já seca, cortou a sinfonia doméstica, sentiu cheiro de café e disse pro tapete:
“Olha aí, meu melhor papel”



CONTO – É DERRAME
Dezembro 9, 2008, 3:56 am
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            Parece que algo puxa minhas pálpebras. São puxadas rápidas e precisas, mais como contrações. Agora algo puxa abaixo do olho. É uma força que vem em duas direções, em cima e em baixo. Só que estou deitada. Faz alguma diferença? Se estou deitada não seria mais certo falar “de um lado pro outro”? E contrai. Mas contrai com força e raiva, como se a minha própria energia vital tentasse se vingar de mim. Eu me viro, ele quase dorme. Para, mas depois volta, rapidamente. Eu sei que está dormindo porque está tendo espasmos. Mas eu não me importo.

            “Bem, você já sentiu isso?”

            “Que” – Um “quê?” sem acento mesmo e sem ponto de interrogação e rasgado que nem daria pra escrever. Esse é o único adjetivo possível: rasgado.

            “Amor, você já sentiu suas pálpebras vibrarem?”

            “Do que tá falando?”

            “Assim, de repente, enquanto você decide se vai se levantar ou não pra ir ao banheiro. Essas coisas que a gente pensa, sabe? Aí começa a contrair.”

            “É derrame.”

            Foi quando eu descobri que isso se chama derrame. Mas não é um derrame sério daqueles que deixa seqüelas e tudo mais. É um derrame simples que dá em pessoas que estão estressadas.

            “Estressada? Que palavra mais brega. Ninguém mais fica estressado. Não aceito, é muito brega.”

            “Mas você aceitou casar comigo. E isso é brega.” – Nesse momento, ele acendeu o abajur e pegou o óculos que estava em cima do criado-mudo. Me olhou derramada na cama com a boca semi-aberta. E não era um olhar qualquer, ele botou os óculos e me olhou de cima. Ele estava no topo de um prédio em que se podia ver a cidade toda e eu era apenas um saco plástico vazio voando ao léu sem beleza e importância nenhuma. De longe já ouvia vaias, aquelas que ouvimos quando um time perde um gol “Uuuuh”. E isso foi quase meio segundo porque minha primeira reação física foi olhar instintivamente para a minha aliança. Quase meio segundo depois disso, me senti envergonhada pelo meu próprio instinto e tentei disfarçar fingindo que estava examinando minhas unhas. Depois me aproximei e dei um beijinho piedoso em seu peito, e já fechando o olho, disse:

            “Vamos dormir?”

            “Não”

            Ritual começado, alguns minutos antes do fato em si, uma música que pareceu ser a pior música do mundo começa a tocar. É uma música alegre com uma letra que fala sobre guarda-chuvas. Chuvas sempre trazem coisas boas em músicas, como aquela do Frank Sinatra ou Village People. Mas nesse caso, a chuva alegre era irônica e ria de nós, “seus humanos imbecis, vão ter que parar lalala…” – apesar da letra ser sobre as malditas chuvas.

            “Tenho que atender, meu bem”

            Oh, meu bem, tudo bem, querido, tudo bem, pode atender, benzinho, sem pressa, tenho todo o tempo do mundo, nos casamos pra isso não foi? Rolo feito uma criança se jogando num abismo de lama para o outro lado da cama. E o rádio-relógio marca 20h47. Não é nesse horário que estão todos jantando ou assistindo Jornal Nacional? Ou não dá pra imaginar o que um casal recém-casado faz esse horário? Suspiro. Viro de lado e ele está sentado na cama sem roupa, só com um lençol emaranhado de forma estranha em seu pé e falando no celular em tom cada vez mais alto.

            “Não dá pra ouvir, tem muita gente aqui. (pequena pausa) Alô? (pequena pausa) Escuta, eu tô no shopping, no Mc Donald’s, dá pra me ligar outra hora? (pequena pausa) Tá, tá. Não dá pra ouvir, vou desligar.”

            Ele desliga e me olha  sorridente com aquele olhar sacana de homem pelado. Mas.

            “Mc Donald’s? De onde você tirou isso?”

            “Sei lá, amor, disse qualquer coisa” – Já beijando meu pescoço estático. Caramba, homens não percebem quando ficamos estáticas? Porque continuam?

            “Mas Mc Donald’s, amor? Você podia falar, estou num restaurante francês maravilhoso, comendo uma comida estupenda, magnífica.”

            Então ele parou de beijar meu pescoço e me olhou com a mão pousada de leve no meu ombro. Uma de suas sobrancelhas arqueavam aos poucos para cima.

            “Mas você não é francesa.”

            “O restaurante que é francês.”

            “Amor, nós somos brasileiros, inclusive essa casa. E esse colchão aposto que foi feito na China ou algo assim.”

            “Mas então, chinesa? Pior ainda. São os restaurantes mais sujos, os piores do mundo.”

            “Então, são piores que o Mc Donald’s também.”

            “Seu porco. Os dois são horríveis.”

            “Mas o sanduíche é bom. Isso que importa.”

            “Mas são nojentos e fedem a molho barbecue.”

            Ele riu.

            “Que tá rindo? Eu tô falando sério.”

            Ele parou de rir. Fez uma cara de sério forçada. Mas via as contrações no canto da boca que estavam sendo controladas com muita dificuldade.

            “Porco.” – Olhar  decidido pra frente, seguido de cruzamento de braços e franzimento de testa.

            Ele então me olhou caridoso, me chamou de porquinha, beijou-me a testa, que desfranziu-se como uma sanfona fazendo a nota mais aguda. Beijou-me a bochecha, e os olhos se fecharam. Finalmente, beijou-me a boca. Meu instinto dessa vez fez meu braço envolvê-lo.

            Qualquer coisa apagou a luz.