Xis Princesa


DICAS DE CLARICE LISPECTOR
Dezembro 15, 2008, 8:00 pm
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ou melhor dizendo, Dicas de Teresa Quadros

Meio cômico, mas eficaz…
De que modo matar baratas? Deixe, todas as noites, nos lugares preferidos por esses bichinhos nojentos, a seguinte receita: açúcar, farinha e gesso, misturados em partes iguais. Essa iguaria atrai as baratas que a comerão radiantes. 
Passado algum tempo, insidiosamente o gesso endurecerá dentro 
das mesmas, o que lhes causará morte certa.

Na manhã seguinte, você encontrará dezenas de baratinhas duras,
transformadas em estátuas.

Há ainda outros processos. Ponha, por exemplo, terebentina nos lugares freqüentados pelas baratas: elas fugirão. Mas para onde? O melhor, como se vê, é mesmo engessa-las em inúmeros monumentozinhos, pois ‘para onde’ pode ser outro aposento da casa, o que não resolve o problema.



CONTO – É DERRAME
Dezembro 9, 2008, 3:56 am
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            Parece que algo puxa minhas pálpebras. São puxadas rápidas e precisas, mais como contrações. Agora algo puxa abaixo do olho. É uma força que vem em duas direções, em cima e em baixo. Só que estou deitada. Faz alguma diferença? Se estou deitada não seria mais certo falar “de um lado pro outro”? E contrai. Mas contrai com força e raiva, como se a minha própria energia vital tentasse se vingar de mim. Eu me viro, ele quase dorme. Para, mas depois volta, rapidamente. Eu sei que está dormindo porque está tendo espasmos. Mas eu não me importo.

            “Bem, você já sentiu isso?”

            “Que” – Um “quê?” sem acento mesmo e sem ponto de interrogação e rasgado que nem daria pra escrever. Esse é o único adjetivo possível: rasgado.

            “Amor, você já sentiu suas pálpebras vibrarem?”

            “Do que tá falando?”

            “Assim, de repente, enquanto você decide se vai se levantar ou não pra ir ao banheiro. Essas coisas que a gente pensa, sabe? Aí começa a contrair.”

            “É derrame.”

            Foi quando eu descobri que isso se chama derrame. Mas não é um derrame sério daqueles que deixa seqüelas e tudo mais. É um derrame simples que dá em pessoas que estão estressadas.

            “Estressada? Que palavra mais brega. Ninguém mais fica estressado. Não aceito, é muito brega.”

            “Mas você aceitou casar comigo. E isso é brega.” – Nesse momento, ele acendeu o abajur e pegou o óculos que estava em cima do criado-mudo. Me olhou derramada na cama com a boca semi-aberta. E não era um olhar qualquer, ele botou os óculos e me olhou de cima. Ele estava no topo de um prédio em que se podia ver a cidade toda e eu era apenas um saco plástico vazio voando ao léu sem beleza e importância nenhuma. De longe já ouvia vaias, aquelas que ouvimos quando um time perde um gol “Uuuuh”. E isso foi quase meio segundo porque minha primeira reação física foi olhar instintivamente para a minha aliança. Quase meio segundo depois disso, me senti envergonhada pelo meu próprio instinto e tentei disfarçar fingindo que estava examinando minhas unhas. Depois me aproximei e dei um beijinho piedoso em seu peito, e já fechando o olho, disse:

            “Vamos dormir?”

            “Não”

            Ritual começado, alguns minutos antes do fato em si, uma música que pareceu ser a pior música do mundo começa a tocar. É uma música alegre com uma letra que fala sobre guarda-chuvas. Chuvas sempre trazem coisas boas em músicas, como aquela do Frank Sinatra ou Village People. Mas nesse caso, a chuva alegre era irônica e ria de nós, “seus humanos imbecis, vão ter que parar lalala…” – apesar da letra ser sobre as malditas chuvas.

            “Tenho que atender, meu bem”

            Oh, meu bem, tudo bem, querido, tudo bem, pode atender, benzinho, sem pressa, tenho todo o tempo do mundo, nos casamos pra isso não foi? Rolo feito uma criança se jogando num abismo de lama para o outro lado da cama. E o rádio-relógio marca 20h47. Não é nesse horário que estão todos jantando ou assistindo Jornal Nacional? Ou não dá pra imaginar o que um casal recém-casado faz esse horário? Suspiro. Viro de lado e ele está sentado na cama sem roupa, só com um lençol emaranhado de forma estranha em seu pé e falando no celular em tom cada vez mais alto.

            “Não dá pra ouvir, tem muita gente aqui. (pequena pausa) Alô? (pequena pausa) Escuta, eu tô no shopping, no Mc Donald’s, dá pra me ligar outra hora? (pequena pausa) Tá, tá. Não dá pra ouvir, vou desligar.”

            Ele desliga e me olha  sorridente com aquele olhar sacana de homem pelado. Mas.

            “Mc Donald’s? De onde você tirou isso?”

            “Sei lá, amor, disse qualquer coisa” – Já beijando meu pescoço estático. Caramba, homens não percebem quando ficamos estáticas? Porque continuam?

            “Mas Mc Donald’s, amor? Você podia falar, estou num restaurante francês maravilhoso, comendo uma comida estupenda, magnífica.”

            Então ele parou de beijar meu pescoço e me olhou com a mão pousada de leve no meu ombro. Uma de suas sobrancelhas arqueavam aos poucos para cima.

            “Mas você não é francesa.”

            “O restaurante que é francês.”

            “Amor, nós somos brasileiros, inclusive essa casa. E esse colchão aposto que foi feito na China ou algo assim.”

            “Mas então, chinesa? Pior ainda. São os restaurantes mais sujos, os piores do mundo.”

            “Então, são piores que o Mc Donald’s também.”

            “Seu porco. Os dois são horríveis.”

            “Mas o sanduíche é bom. Isso que importa.”

            “Mas são nojentos e fedem a molho barbecue.”

            Ele riu.

            “Que tá rindo? Eu tô falando sério.”

            Ele parou de rir. Fez uma cara de sério forçada. Mas via as contrações no canto da boca que estavam sendo controladas com muita dificuldade.

            “Porco.” – Olhar  decidido pra frente, seguido de cruzamento de braços e franzimento de testa.

            Ele então me olhou caridoso, me chamou de porquinha, beijou-me a testa, que desfranziu-se como uma sanfona fazendo a nota mais aguda. Beijou-me a bochecha, e os olhos se fecharam. Finalmente, beijou-me a boca. Meu instinto dessa vez fez meu braço envolvê-lo.

            Qualquer coisa apagou a luz.



PAROLHAS
Novembro 17, 2008, 9:29 pm
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puta quel paril… achei uns textos que datam 2004! e outros 2005!

vai, não era tão ruim assim… hehe

Risos. Parece que te riem mesmo quando estão chorando. Eu te digo pra confiar, e você vai lá e confia. A mesma coisa que sair de casa e esquecer de conferir se não está esquecendo de levar a escova de dente. Todo mundo sabe que não é pra fazer, mas chega na hora, vai lá e faz. Sabe, porque você acha que só você seria a excessão? Puta egoísmo, né. Pelo menos uma vez na vida, filho, ouça o que a sua mãe tem a dizer. As vezes ela tá certa. Mas tá, tá, nem adianta. Pra crescer, criança tem que perder muitos dentes. Antes que caiam sozinhos bata logo sua cabeça na parede para caírem todos de uma vez. Uma dor horripilante pode cicatrizar certos machucadinhos, sabe? Também depende do ponto de vista, mas pra mim todo mundo caminha na mesma direção: A parede. E tem gente que pensa que é fantasma e vai poder atravessá-la. Pobre, só pensa, né. Depois quando tá num leito, acaba pedindo eutanásia pra não morrer de arrependimento depois. Dá vontade de rir. Quanto antes melhor. Mãe, se o seu filho tem 13 anos e achar que pode casar com o namoradinho novo, apóie. Só não apóie se quiser ela eternamente te pedindo dinheiro pra dar pro pastor. Amém.


Chega
Outubro 29, 2008, 9:32 pm
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CHEGA! ESSE BLOG TÁ MUITO CULT! CANSEI.

 

(tugudugudugudugudu….)
(tugudugudugudugudu….)
(tugudugudugudugudu….)

Só na percursão

(tugudugudugudugudu….)
(tugudugudugudugudu….)

Aeh muleque (tugudugudugudugudu….)
Tá manero (tugudugudugudugudu….)
(tugudugudugudugudu….)

Ela balança mas não pára…(tugudugudugudugudu….)
Balança mas nunca pára
Ela balança mas não pára…(tugudugudugudugudu….)
Balança mas nunca pára
Ela balança mas não pára…
No ritmo do olodum

Quem fez essa pra ela foi o MC Buiú…
Bota o dedinho na boca e faz cara de tarada
Vai descendo, rebolando, balança mas nunca para…(tugudugudugudugudu….)

Balança mas nunca pára
Ela balança mas não pára (tugudugudugudugudu….)
Balança mas nunca pára
Ela balança mas não pára (tugudugudugudugudu….)

E quando eu mandar mulher
Bota a mão no joelhinho
Essa é a nova do Buiú
É hora da novinha de balançar o bumbum…

Balança, balança, balança o bumbum…
Balança, balança, balança o bumbum…
Balança, balança, balança o bumbum…

No ritmo do olodum…

Desce, que desce, que desce
Desce, que desce, que desce
Desce, que desce, que desce

No ritmo do olodum…

Rasta que rasta que rasta o bumbum…
Rasta que rasta que rasta o bumbum…
Rasta que rasta que rasta o bumbum…

Tamborzim com olodum…

Ela balança mas não para…(tugudugudugudugudu….)
Balança mas nunca para…
Ela balança mas não para…(tugudugudugudugudu….)
Balança mas nunca para…
Ela balança mas não para…
No ritmo do olodum

Quem fez essa pra ela foi o mc buiú…
Bota o dedinho na boca e faz cara de tarada
Vai descendo, rebolando, balança mas nunca pára…(tugudugudugudugudu….)

Balança mas nunca pára…
Ela balança mas não pára… (tugudugudugudugudu….)
Balança mas nunca pára…
Ela balança mas não pára… (tugudugudugudugudu….)

E quando eu mandar
Bota a mão no joelhinho
Essa é a nova do buiú
É hora da novinha vim balançar bumbum…

Balança, balança, balança o bumbum…
Balança, balança, balança o bumbum…
Balança, balança, balança o bumbum…

No ritmo do olodum…

Desce, que desce, que desce
Desce, que desce, que desce
Desce, que desce, que desce

No ritmo do olodum…

Rasta que rasta que rasta o bumbum…
Rasta que rasta que rasta o bumbum…
Rasta que rasta que rasta o bumbum…

 

Tamborzim com olodum…



E volto a escrever…
Outubro 16, 2008, 1:18 am
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E então, volto a escrever, “me pego cantando, sem mais nem porquê”

A foto denuncia que o encanto acabara. É branco e preta e antes só a via colorida e brilhante (Apesar de ser mesmo branca e preta). É uma pessoa, não a pessoa. É a mesma coisa de quando escrevemos algo e achamos depois de anos no fundo de uma gaveta… Daí percebemos o que realmente havíamos escrito, normalmente bem diferente da primeira impressão da época que escrevemos. Aquela foto era isso. Esvaziou-se, envelheceu, esfarela em minha mão.

Ah, centelha! Sorri.



A Mentira
Agosto 27, 2008, 10:24 pm
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Filmar.  Está na nossa mão a imagem do mundo. E ela pode ser vista do ângulo que quisermos. Ela pode se transformar em sonho, em riso, em ódio. Ela vem de fora, mas se incorpora dentro, ela é o macro e o micro, tudo em uma coisa só. E é a realidade. É aquilo que se vê, mesmo que aquilo for uma grande mentira. E se segundo Nietzsche o Evangelho é uma grande mentira… Mentiremos, então! Um pouco dessa enganação faz bem. Entorpece, seda, e faz a gente acreditar. É a mentira mais dócil que já te contaram… O jump cut é uma grande reticências… A vida é um grande jump cut – Genial frase by Mari Gusman! – As sombras que não existem, as luzes que levam ao nada, os lugares que terminam, o céu de papelão. Ah, e como isso tudo é bom. Como  é bom olhar aquilo e acreditar. Desse jeito, quero ser enganada a vida toda…!

 

Não é que não estou escrevendo. É que não ando gostando de nada que escrevo… Inclusive esses dois últimos textos. Paciência.



Conto: Coincidências
Julho 22, 2008, 11:08 pm
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Conto escrito em fevereiro de 2006. Estou postando porque reli, achei “engraçadinho” o suficiente pra postar em um blog de novo. Até porque estou atualmente num verdadeiro HIATO de idéias. É um conto bem confuso, mas quando escrevi, juro, fazia o maior sentido. Só não me lembra QUAL agora, mas fazia.

Aqui estou eu, insone e incoerente sentada na frente de letras enfileiradas louquinhas para se juntarem em forma de palavrinhas, frases, doidinhas para serem lidas depois, “me leia, me leia, pelo amor de deus”. E eu aqui estou a olhar o estalar da junção sexual dessas letras pra lhes narrar um episódio curioso que me passou pela cabeça, imitando aquela frase clichezérrima “Que mundo pequeno” ou ainda “Minha cidade é um ovo”, falo das coencidências. Certa vez me disseram que eu sou ligada a qualquer pessoa do mundo por 6 pessoas, então concluí que tenho 1/6 de chances de conseguir falar com o Mick Jagger ou com o Paul McCartney alguma vez na vida, nem que seja um “Hi, how are you? I’m fine, thanks”.

Então começarei a narração antes que eu perca esse fio desse meio, meada não se refere a meio mas a palavra me lembra.

É, exisitiam duas meninas, duas Lauras. Ambas, há 27 anos atrás, nascendo lindas, singelas e sangrentas na mesma maternidade e no mesmo dia. Uma vez trocaram olhares, cada uma em sua respectiva incubadora, “Oi Laura 1″ “Oi Laura 2″, assim como falam no jardim da infância quando duas pessoas tem nomes igual. Depois nunca mais trocaram olhares nenhum e um detalhe importante, elas não viraram lésbicas.

Laura 1 é uma poetisa indecifrável e gosta de jogar tênis, tem uma paixão por tênis. Combinação mais estranha, poderia existir? Será que uma escritora pode ao mesmo tempo praticar algum esporte? Ela era indecifrável e justamente porque suas poesias eram horríveis. Ela não tinha tempo para pensar porque passava muito mais tempo com uma raquete na mão. É do tipo que gosta de barra de cereais e que odeia fumaça de cigarro.

Laura 2 por sua vez está prenha há 3 semanas, até então não havia caído a ficha. Ela pensava o tempo inteiro “Que merda, não vou transar grávida, que merda”… Mas estava feliz e já pensava em um nome pra dar pro moleque… Tinha certeza que era moleque porque ela tinha essas coisas de sexto sentido de mulher. E praticava ioga.

Thiago é o companheiro de Laura 1 nas suas aventuras com a raquete e as bolinhas, eles freqûentam o mesmo clube. Ainda não se cataram porque ela acha ele muito feio, mas essas coisas vão mudando com o tempo, você vai gostando da pessoas pelo interior. Correção, você vai se acostumando com a feiúra mesmo e pensa “Poxa, mas ele gosta das mesmas coisas que eu, que custa dar uma chance”. Laura 1 está nesse momento de transição, quando passa pela cabeça de convidá-lo para um acampamento não consegue encarar o cidadão, afinal seu nariz é tão grande que é impossível faze-lo com precisão.

Por outro lado Laura 2 acaba de decidir com o marido o nome do filho, que vai ser Thiago. Lindo nome Thiago, não acha, bem? Thiago com AGÁ no meio!

Enquanto isso em um bar horrível e capenga, ás 3 da manhã, Thiago se embriagando por não ter o amor de Laura 1, conhece uma bailarina linda, bailarina? Bem, ele não sabe afinal está muito alcoolizado, mas parece que a roupa dela é rosa, e rosa o faz lembrar de bailarinas. É uma noite lasciva com a menina de rosa, “muy caliente” diz ele, faz tempo que não fazia uma loucura dessas de fugir de carro (Foi de carro mesmo?) com uma mocinha desconhecida, que doidera, menina fogueteira, bailarina nada! Então as roupas rosas se espalhando pelo chão do quarto dele (arrumado até), e ela dormindo de bruços e ele de lado que dormir de bruços é coisa de boiola. A menina era feia mas ele pagava bem.

Laura 2 então fica com o nome de Thiago na cabeça, e fica pensando tanto que decide até mesmo em que o moleque será pHD, ou médico, ou advogado, qualquer coisa do estilo, assim fico fazendo ioga até bem mais velhinha e ele cuida de mim. É bem esse estilo de mulher, que fica grávida pro filho cuidar dela depois… Rárrárrá, coitado, assim vai pro céu mas duvido que o inferno não chegue antes com seus sete pecadinhos capitais, amém padre, amém.

Então depois de mais 2 semanas Thiago faltando de todos os treinos de tênis Laura 1 resolve ligar para a casa dele e quem atende? A bailarina. Ela se desmancha em lágrimas, “me chama o Thiago, me chama o Thiago?”… E ele, “Que é?” com aquela voz de quem tá arfando e suado, “O que você tá fazendo aí?”, “Eu to morrendo”, diz ele. “Morrendo como, Thiago?”, “Morrendo, vou ser papai, já vou ser papai”, “Você está drogado? O que tem usando?”, “O que eu não tenho usado, camisinha”. Explode, explode, explode, explode.

Laura 2 está dormindo com seu marido e os passarinhos cantam, não fazem mais sexo.

Laura 1 ficou visitando o amigo e a bailarina umas 3 vezes. Então a menina um dia sumiu e ele estava embaixo da cama suando frio, foi daí que ele falou, eu te amo assim, de maneira diferente, tipo: “A menina vai chamar Laurinha”, “É menina?”, “É, vai chamar Laurinha, homenagem, Laurinha”, ele dormiu um pouco, uns 2 minutos e eu fiquei lá vendo ele babar.



Conto: She’s my shooshoo
Julho 18, 2008, 7:08 pm
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Chegou e sentou, sem surpresas. Olhava para o relógio, impaciente consigo mesma. Mas precisava estar lá, ainda tinha um prato de comida inteiro pela frente.

Ele veio quase sem querer, sentou-se sem fazer barulho, a quase um metro e meio de distância. Mesmo com o barulho incessante de seres humanos vivendo ao seu redor, ele atreveu-se a ser silencioso.

Ele comia um lanche; ela, arroz e feijão.  Mas tanto fazia. Até agora, eram apenas duas pessoas em horário de almoço. Até ela sentir… Um fio.

Esse fio ligava-os. Eles comiam sem parar, mas ela sentia esse fio percorrer de pensamentos insanos pelos dois. “Mas como sei o que ele pensa? E se ele nem tiver reparado que estou aqui? Não pode ser, não é possível estar tão errada, porque sinto. Ele está comendo, mas também reparou. Deve estar se perguntando se estou pensando nele. Mas como vou saber exatamente?…” E engoliu a carne.

Olhou algumas vezes para o lado, rapidamente, disfarçando, pra ver se decorava a sua feição. Era magro, usava uma camiseta branca, e estava já na metade do lanche. Olhava pro lustre, mas sua objetiva captava quase que claramente sua imagem. Não podia encarar, ia dar na cara. Não podia saber se era bonito, mas algo na ponta de seus dedos lhe parecia familiar. “Já vi essas pontas de dedos… Eu gosto desse tipo de dedo. E se esse homem for o homem da minha vida? E se o destino desses dedos é me tocar pelo resto da minha existência? E se ele se chamar Pedro, Murilo, Hugo? E se meu sobrenome combinar com o dele? E se a gente descobrir enfim o verdadeiro amor? E os filhos vão ser maravilhosos”

Aí revelou-se a verdade. Ele acabara de comer o lanche, e deixara para beber o suco só depois. Ele se espalhou pela cadeira da mesa, sugando pelo canudinho o liquido alaranjado. Ela olhou de raspão, admirou aquele milésimo de segundo e se contentou, tudo era claro: “Ele também bebe o suco depois. É o homem da minha vida, tenho certeza… Só pode ser. E também está olhando aqui. Não vi ele olhar, mas só pode estar… Eu sinto ele olhar”.

Começou a ficar nervosa, quase suou frio, olhava para as coisas tentando disfarçar certa naturalidade. Já estava atrasada, mas queria que aquele momento de silêncio durasse pra sempre. Ele sabia, ele estava sentindo a mesma coisa. “Vou falar com ele, vou levantar daqui e perguntar ‘Qual é o seu nome? Porque está almoçando sozinho? Você mora por aqui?’ ou simplesmente… ‘Quer casar comigo?’… Ele aceitaria, porque justamente estava pensando em fazer a mesma pergunta. ‘Aceito. Qual é o seu nome? Puxa… Nossos nomes combinam” – Ele diria. Não levantava dali, ela sabia que ele olhava sem parar para a ela, começou a ficar vaidosa, e a naturalidade lhe escorria pelas mãos em seus falsos gestos. Há muito tempo a comida havia acabado, o suco também, não havia mais o que fazer, tornou-se insuportável.

Então ela levantou, fingiu olhar o relógio com interesse, e foi embora, perdendo assim para sempre o amor da sua vida.



Rodoviárias
Junho 30, 2008, 9:32 pm
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Parei em um banco, chegando de outra cidade. Fiquei lá. Atrás de mim, um homem que não ousei encarar, falava animadamente ao telefone. Acho que era gay. Mas estava arrependido de alguma coisa. Haviam outras pessoas sentadas, esperando, sozinhas. Havia de dois a três bancos entre elas. Uma a minha frente fumava e lia um livro. Havia também um garotinho que me encarava as vezes com seus olhos grandes de criança curiosa. Comecei a ter a idéia de escrever sobre rodoviárias. Logo tracei um curto diálogo silencioso comigo mesma: “Acho que alguém já deve ter escrito sobre rodoviárias. Será? Com certeza alguém já escreveu. Mas é uma idéia tão bacana. Vou escrever no meu caderninho, e daí se alguém já escreveu? Se já, eu nunca li.” – Quer dizer, não dá pra transcrever exatamente o que eu pensei, mas juro que foi mais ou menos isso.

Então comecei a escrever sobre rodoviárias. E descobri que há muito o que falar sobre elas…

A rodoviária não é o lugar comum dos estranhos desconhecidos. Lá, ninguém se olha, as vidas passam alheias, porque todos se preocupam demais com as suas próprias vidas quando voltam ou estão de viagem. Estão pensando “Que horas são?”, “Estou atrasado”, “E se o vidro de perfume estourar na minha mochila?”, “Esqueci as escovas de dente”, “Que saudades..” e assim por diante. Então cada um segue seu rumo, literalmente. Ah, se a vida fosse rodoviária!

A rodoviária é o antro da saudades, dos sentimentos mais puros. Ouvi dizer uma vez que “miss” em ingles quer dizer “sentir falta”, mas não há designação da palavra “saudades” – aquele sentimento de angústia (?) misturada com solidão (?) fervor, amor, ódio (????) – em mais nenhuma outra lingua a não ser no português. Os brasileiros sentem saudades, nobre. E é na rodoviária que esse sentimento deságua nas mais diferentes maneiras. A saudade, ao mesmo tempo que morre ali, também nasce. As pessoas vão e vem.

A rodoviária é o espaço dos abraços, das descobertas, dos deslumbramentos, da ansiedade, do nervosismo, do medo, do refúgio, da escapatória, da solidão, da congregação.

A rodoviária é a igreja do brasileiro. Que está sempre lá, tão longe… E sobre rodoviárias, fico com a impressão que disse muito pouco.

 



Exercício de Flanêur – Parte Dois
Junho 23, 2008, 10:15 pm
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Post ainda ainda nas minhas aulas de sociologia,parte minha do trabalho: Fotos da cidade com pequenas historietas baseadas nos textos do João do Rio.

 

Voltava de uma grande dor de cabeça pós uma noite de ebriedade. Vejo-me pelas ruas quase caindo em cima das sarjetas que me parecem mais camas, confortáveis camas. A cabeça se apóia no parapeito como se ele tivesse sido construído especialmente para ela. A visão tortuosa de repente ajeitou-se: Via diante de mim o velho e o novo, o agora e o depois, o convém e não convém, o moderno e o medieval. As linhas traçadas davam pro céu. Cansado, bêbado, fatigado, dormi e esqueci de todos os paradoxos revordosos da cabeça bêbada. Acordei e não passavam de edifícios.

 

O rádio toca a decisão do campeonato, por enquanto, 2 a zero. Os cobertores cheias de poeira, voam seus ácaros. Rodeando seu corpo o frio do dia ensolarado. O cachorro que dorme com as pulgas. As bitucas de cigarro daquele mal-educado. Algo que estourou sem querer. As folhas de caderno que voaram, perdendo-se para sempre. As folhas comidas das árvores. Poeira. Vento. Chuva. Sol. Tudo volta a ser limpo, a vassoura dança suja limpando toda a podridão.

 

A janela era uma mácula. A luz não poderia ultrapassá-la minimamente, se não corria o risco de queimar-lhe a pele até surgir a carne-viva. Escondia-se pelos cantos da casa como um cachorro amedrontado na prisão. Resmungava palavras sem nexo a partir de conclusões estúpidas e loucas. Alguém as vezes o visitava, sem a menor vontade. “Você está bem?” – Perguntavam. E a resposta era sempre vazia. Até que um dia chegou o rebento da terceira geração. Abriram a janela com vontade de brincar. A luz do sol esverdeou-se, ele viu a vertigem, viu o céu, nuvens, prédios, flashbacks, cantos de parede verdes. Fechou os olhos e nunca mais.

 

Posicionam-se os corredores. Ouve-se o disparo. A pista é imensa, saem. É só um treino, mas há apreensão, nervosismo, nuvem de poeira e inquietude.  Quem será o vencedor? Amanhã é dia de decisão. Um deles vai parando lentamente. Pára. Olha para o chão e vê aquela planta disforme, quase em forma de um coração. Apóia-se no chão, maravilhado, observa: O Universo dança, conspirando em cada detalhe sórdido seus ritmos cardíacos. Emociona-se. Os outros corredores já o ultrapassaram por uma volta. Ele venceu.

 

Depois de vinte e três anos, a caminho de uma padaria qualquer que vendesse qualquer cigarro, foi que vi. A luz vermelha nunca foi tão conveniente. Contemplava a cena de longe. Conversavam displicentemente, banalmente. Será que já esqueceram? É bem possível, depois de tanto tempo…  Já devem ter esquecido mesmo. Como vieram parar aqui? Como ela foi pintar o cabelo dessa cor? Por que discute com esse garoto? Será que esse garoto é “aquele”? Ela engordou. Deu vontade de chorar, e sim, certa saudade. Mas esqueceram. Virei-me de costas e fugi, calmamente, fumando meu último cigarro, sem esperança de encontrar outro.

 

Ah! Se todas essas águas fossem iguais. Termina o dia e estou aqui, imundo, descido de uma barcaça suja, precisando de um banho. Mas o sol se põe, e meus olhos não conseguem relutar em olhar para a calçada suja, eles querem o mar ainda, em tom de despedida, do mesmo jeito que o sol se despede do mar. Um homem com seu segundo olho reluta, filma sem saber a despedida.